Na abertura do evento, Luís Montenegro destacou as condições de Portugal para captar investimento estrangeiro e apresentou o país como um destino competitivo para empresas internacionais. O primeiro-ministro afirmou perante a comunidade empresarial alemã que “vale a pena investir em Portugal”, associando essa capacidade de atração ao esforço de trabalho, ao investimento e à criação de riqueza pelas empresas.
A Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã (CCILA) conseguiu trazer o evento bienal pela primeira vez a Lisboa. A crescente importância da Península Ibérica para a competitividade comercial e política da Europa foi um dos argumentos que sustentaram a escolha da capital portuguesa. Para além da sua localização geográfica e das condições oferecidas à atividade empresarial, Portugal apresenta-se como um potencial parceiro para a economia europeia pelas suas relações privilegiadas com o Brasil e com os países lusófonos de África.
No painel ‘Reforçar o Poder Comercial da Europa’, Volker Treier, responsável pelo comércio externo e membro da direção da Confederação Alemã das Câmaras de Comércio e Indústria (DIHK), debateu com responsáveis de empresas os fatores que condicionam a competitividade europeia.
Treier sublinhou a necessidade de reduzir a burocracia, garantir preços competitivos para a energia, acelerar os processos de autorização e aprofundar o mercado interno europeu. “As empresas precisam de menos burocracia, preços competitivos na energia, processos de autorização mais rápidos e um mercado interno que faça mesmo jus ao seu nome – as fronteiras internas têm de ser totalmente eliminadas, não só no que diz respeito à circulação de mercadorias, mas também aos serviços, à energia e ao capital”, afirmou.
Ao mesmo tempo, defendeu a manutenção de uma Europa aberta ao comércio internacional. “Novos acordos comerciais e parcerias fiáveis criam mercados de venda e ajudam a reduzir as dependências. A competitividade surge onde as empresas têm espaço de manobra para investir e crescer”, acrescentou.
Na mesma linha, Frank Meyer, diretor executivo da Robert Bosch GmbH, apontou a redução da burocracia, a competitividade dos custos energéticos e a criação de condições favoráveis ao investimento como prioridades para os responsáveis políticos. O responsável considerou também que as próprias empresas devem atuar sobre os fatores internos que limitam a sua capacidade de resposta.
“As empresas têm o dever de reduzir as complexidades internas”, afirmou, defendendo investimentos consistentes em IA, novos modelos de negócio e novos serviços. “A próxima fase da IA é uma oportunidade especial: a Europa pode aproveitar a sua força industrial e os dados do mundo real para assumir um papel de liderança no domínio das soluções de IA industrial”, acrescentou.
A Bosch emprega mais de 5.900 pessoas nas instalações de Aveiro, Braga, Lisboa e Ovar, onde desenvolve atividades de investigação e desenvolvimento, produção e serviços. Em 2025, a empresa atingiu um volume de negócios de 2,1 mil milhões de euros.
A propósito do investimento anunciado de 100 milhões de euros no desenvolvimento e produção de bombas de calor até ao final de 2026, Frank Meyer destacou as condições oferecidas por Portugal. “Portugal oferece-nos várias vantagens estratégicas: uma base industrial sólida, um panorama diversificado de investigação e de ensino superior, bem como acesso a mão de obra qualificada”, referiu.
Também a Saertex apresentou a sua perspetiva sobre a competitividade industrial europeia. A empresa é especializada no fabrico de têxteis técnicos a partir de fibras de vidro, carbono, aramida e linho. Com 12 localizações e uma equipa internacional de 1.100 pessoas, regista atualmente um volume de negócios de 210 milhões de euros.
“A unidade de produção em Portugal é uma parte importante da nossa presença europeia. Aqui continuamos a desenvolver, de forma específica, os processos de fabrico para garantir a qualidade e a eficiência a longo prazo”, afirmou Christian Beckmann, diretor executivo da Saertex GmbH & Co. KG.
Sobre o futuro da competitividade europeia, o responsável relacionou sustentabilidade e desempenho empresarial. “As empresas não devem encarar a sustentabilidade como obrigação regulamentar, mas sim como oportunidade. Quem implementar atempadamente os critérios da taxonomia da UE e os comprovar de forma transparente cria uma vantagem competitiva – em concursos públicos, financiamentos e investimentos”, afirmou.
A inteligência artificial foi outro dos temas centrais da conferência, com os participantes a analisarem o potencial da tecnologia para aumentar a produtividade e reforçar a capacidade industrial europeia.
No painel dedicado às oportunidades da IA, Sabina Jeschke, CEO do KI Park, defendeu uma aposta na aplicação industrial da tecnologia. “O futuro da Europa depende da nossa capacidade de criar, com a IA, as melhores máquinas, fábricas e infraestruturas do mundo”, afirmou.
O KI Park é um ecossistema europeu de deep tech e IA que liga empresas, start-ups, investigação e capital através de casos de aplicação reais, procurando acelerar a passagem das soluções da fase-piloto para a produção.
Sabina Jeschke considera que a IA está também a alterar os fatores que determinam a concorrência entre empresas. “A IA altera a lógica da concorrência: passa a ser decisivo com que rapidez uma empresa aprende com a IA, integra competências complementares do ecossistema e, a partir daí, cria produtividade mensurável, resiliência e novos modelos de negócio”, afirmou.
À política, a responsável pediu condições para o desenvolvimento de infraestruturas e para o investimento, nomeadamente capacidade computacional, energia a preços competitivos e capital destinado ao crescimento. Defendeu ainda uma revisão da legislação europeia nas áreas da proteção de dados, do regulamento da IA e da lei dos dados, de forma a permitir às empresas experimentar, integrar e escalar aplicações de IA com maior rapidez.
A velocidade de implementação foi igualmente destacada por Oliver Steil, CEO da TeamViewer, empresa especializada em tecnologia informática. “O problema é, neste momento, o ritmo de transição da fase-piloto para a implementação generalizada. Quem conseguir acelerar este processo vai conseguir fazer da IA um motor de crescimento para a economia europeia”, defendeu.
Para o responsável, as empresas tecnológicas europeias podem desempenhar um papel relevante na aplicação prática da IA. “Neste campo, as empresas europeias de tecnologia podem dar um importante contributo: levar a IA aos locais onde facilita, de forma notável, o trabalho”, concluiu.






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