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Opinião | Os novos protagonistas da Eficiência Energética dos Edifícios

Ana Fernandes, vice-presidente da EFRIARC

18/05/2026

"Queremos edifícios eficientes, inteligentes, saudáveis e centrados nas pessoas. Para alcançar este objetivo, é indispensável reconhecer que a eficiência energética não se mede apenas em quilowatt-hora poupados, mas também na capacidade de criar ambientes interiores de qualidade."

A melhoria da eficiência energética dos edifícios é um dos pilares da transição climática europeia, e está no centro da Diretiva sobre o Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD) desde a sua primeira versão. Mais uma vez, a revisão de 2024 reforça esta prioridade ao estabelecer o objetivo de alcançar um parque edificado com emissões nulas até 2050. Mas o novo texto vem também reconhecer que os cidadãos europeus passam mais de 90% do tempo em espaços interiores, e que edifícios mal concebidos ou não renovados estão associados a problemas de saúde, absentismo, menor produtividade e custos acrescidos para os sistemas de saúde. Assim, a eficiência energética deixa de ser um objetivo exclusivamente técnico ou climático e passa a ser um instrumento para melhorar o bem-estar e a qualidade de vida.
Ana Fernandes, vice-presidente da EFRIARC
Ana Fernandes, vice-presidente da EFRIARC.

Mas passar da teoria à prática traz desafios significativos. Durante décadas a eficiência energética dos edifícios foi entendida quase exclusivamente como uma questão de redução de consumos e de emissões. Assumiu-se que para reduzir custos operacionais e impacto ambiental, a qualidade do ar interior ficaria em segundo plano, uma vez que depende fortemente do desempenho dos sistemas de ventilação e ar condicionado.

O paradigma agora é outro. A abordagem tem de ser integrada, onde a redução do consumo energético anda a par da criação de edifícios mais saudáveis, confortáveis e resilientes. Eficiência energética e qualidade do ar interior são agora objetivos inseparáveis.

Para que estes objetivos se concretizem, é indispensável a atuação coordenada de um conjunto alargado de intervenientes, públicos e privados, ao longo de toda a cadeia de valor da construção e da energia, nomeadamente do sector AVAC-R.

Começando pela própria transposição da diretiva para a legislação nacional, atualizando padrões mínimos de desempenho energético, integrando a monitorização da Qualidade do Ar Interior, refletindo estes objetivos no Plano Nacional de Renovação de Edifícios.

A seleção de soluções sustentáveis e corretamente dimensionadas na fase de projeto continua a ser a base da eficiência energética de um edifício ao longo da sua vida útil. Mais uma vez, durante décadas, assumiu-se que um bom projeto era garantia de um edifício eficiente.

Mas para além do projeto, a fase de instalação e comissionamento são igualmente importantes, assim como a manutenção e a monitorização de consumos energéticos, ou, como agora é exigido, da qualidade do ar.

No entanto, a resposta para a melhoria do desempenho energético não está apenas no projeto e na construção, mas sobretudo na forma como os edifícios são geridos e operados diariamente.

Os SACE são o elemento técnico que permite essa evolução. Ao monitorizar continuamente parâmetros como temperatura, humidade, níveis de CO2, ocupação e consumos energéticos, estes sistemas tornam possível gerir a energia de forma inteligente, adaptando-a às necessidades reais do edifício e dos seus utilizadores.

Mais importante ainda, o SACE permite resolver uma tensão histórica entre eficiência energética e qualidade do ar interior. Uma ventilação adequada consome energia, mas a ventilação insuficiente gera problemas de saúde e degrada o desempenho cognitivo. Com sistemas de controlo inteligentes, é possível ajustar o caudal de ar em função da ocupação real, garantir boa qualidade do ar interior e evitar desperdícios energéticos. Assim, a eficiência deixa de ser obtida à custa do conforto e da saúde.

A tecnologia por si só não é suficiente. Sem uma estratégia de operação adequada, até os sistemas mais avançados podem funcionar de forma ineficiente. Assim, a operação assume um papel decisivo na obtenção de poupanças energéticas efetivas, assegurando que os sistemas técnicos funcionam de forma eficiente, ajustada às necessidades reais de ocupação e alinhada com as metas climáticas. É evidente que a alteração à diretiva vem valorizar explicitamente o desempenho real dos edifícios ao longo do tempo, deslocando o foco do projeto para a operação. O gestor do edifício tornar-se-á o elo entre a regulamentação, a tecnologia e o uso quotidiano.

O gestor terá a capacidade de transformar dados em decisões. Ao analisar informação proveniente do SACE e de outros sistemas digitais, pode identificar ineficiências, corrigir desvios entre o desempenho previsto e o desempenho real, otimizar horários de funcionamento e ajustar estratégias de climatização e ventilação. Desta forma, contribui simultaneamente para a redução do consumo energético e para a melhoria da qualidade do ambiente interior.

A gestão do edifício, seja operacional ou imobiliária, passa a ter um papel crucial na implementação das políticas de sustentabilidade e eficiência energética. É através da operação diária que os objetivos estratégicos se tornam mensuráveis: menos consumo, menos emissões, melhores condições de trabalho e de vida. Pequenas decisões acumuladas, como ajustes operacionais, manutenção adequada, substituições faseadas de equipamentos, têm um impacto significativo ao longo do ciclo de vida do edifício.

Queremos edifícios eficientes, inteligentes, saudáveis e centrados nas pessoas. Para alcançar este objetivo, é indispensável reconhecer que a eficiência energética não se mede apenas em quilowatt-hora poupados, mas também na capacidade de criar ambientes interiores de qualidade. O SACE fornece os meios técnicos para essa gestão equilibrada; a gestão do Edifício fornece a visão estratégica e operacional para a tornar realidade.

No final, a verdadeira ambição não é apenas reduzir emissões, mas melhorar a forma como vivemos e trabalhamos dentro dos edifícios. Ignorar a qualidade do ar interior em nome da eficiência energética é um erro que estamos em condições de corrigir. Cabe agora aos profissionais do setor, desde projetistas a instaladores, fornecedores e gestores, garantir que esta visão integrada se traduz em edifícios mais eficientes, mais saudáveis e verdadeiramente preparados para o futuro.

Ana Fernandes

Vice-Presidente da EFRIARC

Engenheira mecânica, com experiência consolidada em eficiência energética, instalações AVAC, qualidade do ar interior e gestão do edificado, atuado em diferentes contextos como o setor da saúde, ensino superior e organizações internacionais, conciliando responsabilidades técnicas, de gestão e de contratação pública.

Exerce atualmente funções na Reitoria da Universidade de Lisboa, na Área do Edificado.

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