Leonardo Rodrigues* | Future Energy Leaders Portugal (FELPT)
20/05/2026Segundo o relatório da projeção do mercado solar na União Europeia para 2025-2030 da SolarPowerEurope, o setor residencial fotovoltaico apresenta um declínio de novas instalações nos últimos 2 anos, descendo de 28% do total das instalações em 2023 para apenas 14% em 2025 [1]. Este decréscimo coincide com o final dos apoios governamentais às instalações solares.
Uma das limitações ao crescimento deste setor está no facto de 50% dos agregados familiares viverem em apartamentos sem área de telhado para gerarem a própria energia. Aliado ao facto de os custos dos sistemas fotovoltaicos terem caído drasticamente nos últimos anos, uma nova alternativa surgiu: o 'balcony solar', também conhecido como 'plug-in' solar. Uma em cada cinco instalações solares feitas em 2025 na Alemanha foram deste tipo. Em Portugal, as medidas para a aceleração da transição energética recentemente anunciadas (prevendo-se que autoconsumo até 800 W seja dispensado de controlo prévio) trazem excelentes notícias para estes sistemas, como veremos mais à frente. Neste artigo vamos explorar as vantagens, desempenho e obstáculos à adoção destes sistemas em Portugal.
Para situações em que a área do telhado é limitada ou a instalação carece de aprovação coletiva por unanimidade, como em prédios, este tipo de soluções permite aos moradores de apartamentos produzirem a sua energia renovável e pouparem nas faturas de eletricidade. A modularidade permite ainda a portabilidade, em caso de mudança. Dadas as características destes sistemas e todas as suas vantagens, faz sentido algumas empresas do setor já estejam a comercializar este tipo de soluções.
Na falta de baterias, o autoconsumo muitas vezes não é feito na sua totalidade, pois há menor atividade doméstica nas horas do pico da produção. Esta energia excedente pode ser injetada na rede. No entanto, a burocracia associada ao registo e à venda, bem como os baixos preços de remuneração, fazem com que, em muitos casos, a comercialização desses pequenos excedentes não seja economicamente atrativa, resultando num retorno reduzido para o produtor. Uma alternativa para capturar este excedente é a adição de uma bateria ao sistema, embora o custo adicional prolongue significativamente o retorno do investimento. A simulação horária revela que o sistema a 90°, no Porto, atinge uma taxa de autoconsumo de 95%, contra 80% na inclinação ideal; ou seja, quase toda a energia produzida pelo painel vertical é efetivamente utilizada, enquanto um quinto da produção a 36° é exportada sem retorno. Em Berlim, a tendência é semelhante: 86% a 90° contra 80% na inclinação ideal. Além do desempenho energético, a montagem inclinada a 36° exige uma estrutura saliente da fachada, mais complexa e sujeita suportar ventos até 100 km/h, que pode ser considerada uma alteração à “linha arquitetónica” do edifício, constituindo um obstáculo burocrático que discutiremos mais à frente. A montagem vertical, ao ficar rente à varanda, evita este problema. O perfil a 90°, ao reduzir os picos de verão e manter a produção de inverno alta, oferece, assim, uma curva de produção mais equilibrada e adaptada ao consumo doméstico anual. Podemos, então, concluir que estes sistemas são uma boa opção para aproveitar o recurso solar. No entanto, porque é que ainda não vemos um kit destes em cada varanda?
A nível técnico, este tipo de sistemas perde grande parte da eficiência se a varanda não estiver orientada a Sul. Orientações a Este e Oeste têm perdas consideráveis, sendo que varandas orientadas a Norte apresentam o pior desempenho. A presença de sombreamento também reduz significativamente o desempenho: nos painéis convencionais, basta uma sombra cobrir uma célula para que um terço ou metade do painel deixe de produzir energia. Para mitigar este problema, as empresas estão a investir na tecnologia ABC (All Back Contact), que minimiza as perdas por sombreamento ao nível da célula, garantindo que a perda de potência seja proporcional apenas à área afetada. O custo destes painéis é, contudo, cerca do dobro dos convencionais.
Relativamente à potência, a injeção destes sistemas numa tomada é limitada a 800 W. A corrente gerada pelo painel soma-se à proveniente do quadro elétrico e, em caso de sobrecarga, a cablagem pode transportar corrente superior ao limite que o disjuntor deteta, sobreaquecendo sem que a proteção dispare. O limite de 800 W mantém este risco dentro de uma margem segura. Finalmente, é imperativo que os equipamentos estejam certificados para utilização na União Europeia.
Vamos agora olhar para os obstáculos burocráticos. Para os inquilinos, é obrigatória a autorização do senhorio para a montagem. Muitos proprietários requerem uma instalação profissional e não intrusiva (isto é, sem furos estruturais), o que acresce aos custos do sistema. Adicionalmente, exigência legal de aprovação por uma maioria de dois terços no condomínio para qualquer alteração que afete a 'linha arquitetónica' do edifício cria um impasse administrativo que desmotiva a maioria dos condóminos. Outro obstáculo está no facto de que a própria venda do excedente implica a abertura de atividade nas finanças e a celebração de um contrato com um comercializador, sendo a remuneração frequentemente pouco atrativa em termos de €/kWh, sobretudo quando indexada ao mercado grossista (OMIE), onde os preços tendem a ser mais baixos nas horas de maior produção solar.
Um último ponto, que brevemente poderá deixar de ser uma limitação em Portugal, é a comunicação prévia deste tipo de instalações à Direção Geral de Energia e Geologia (DGEG) caso a potência total exceda os 700 W, conforme o Decreto-Lei 15/2022, de 14 de janeiro. Como anteriormente referido, foi recentemente anunciada a publicação de um novo Decreto-Lei que irá atualizar este valor para 800 W, alinhado com a potência máxima permitida destes sistemas 'plug-in' solar, eliminando assim mais uma etapa burocrática.
Se um país como a Alemanha, que não recebe tanta irradiação solar como Portugal, está a apostar fortemente nesta solução, existe claramente aqui uma oportunidade de participação na transição energética.
Como nota final, de destacar a possibilidade da participação destes sistemas em esquemas de autoconsumo coletivo ou comunidades de energia renovável, mecanismos em rápida expansão no país que permitem aos consumidores usufruírem dos benefícios da energia solar sem necessitarem de espaço próprio para a instalação dos painéis.
[1] SolarPower Europe, EU Market Outlook for Solar Power 2025-2030, SolarPower Europe, Brussels, Belgium, 2025. https://www.solarpowereurope.org/.
[2] T. Huld, R. Müller, A. Gambardella, A new solar radiation database for estimating PV performance in Europe and Africa, Sol. Energy 86 (2012) 1803–1815. https://doi.org/10.1016/j.solener.2012.03.006.
[3] European Commission Joint Research Centre, Photovoltaic Geographical Information System (PVGIS), (2026). https://joint-research-centre.ec.europa.eu/pvgis/.
[4] E-REDES, Perfis de Consumo e Injeção e Perfis de Perdas, https://www.e-redes.pt/pt-pt/clientes-e-parceiros/comercializadores/perfis-de-consumo, 2025.
[5] VDEW, Repräsentative VDEW-Lastprofile, Brandenburgische Technische Universität Cottbus, 1999.
Leonardo Rodrigues
Mestre em Engenharia Química pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Atualmente, está a terminar o doutoramento em Engenharia Civil desenvolvido em parceria com os laboratórios ALICE e CONSTRUCT.
A sua investigação centra-se na simulação e otimização de sistemas baseados em energias renováveis para edifícios, com ênfase em tecnologias fotovoltaicas e sistemas de armazenamento de energia. Anteriormente, fez investigação em fotoeletroquímica, nomeadamente na clivagem da água para produção de hidrogénio verde.



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