Um estudo recente do Buildings Performance Institute Europe (BPIE) – ‘Sufficiency in the National Building Renovation Plans: Recommendations for Member States’ –defende que os planos de renovação devem ir além da eficiência energética e aproveitar o parque edificado existente.
De forma simples, o documento define suficiência como “a redução do consumo absoluto de energia e de recursos materiais, assegurando simultaneamente uma vida digna para todos”. No setor dos edifícios, isso traduz-se, acima de tudo, em “fazer o melhor uso possível do parque edificado existente, renovando em vez de construir de novo”. A ideia não é nova, mas ganha agora um peso político e técnico que dificilmente poderá ser ignorado.
Os números ajudam a perceber porquê. Segundo o estudo, cerca de 34% da população europeia vive em habitações subocupadas e entre 20% e 25% do parque habitacional encontra-se subutilizado. Ao mesmo tempo, os edifícios de escritórios apresentam taxas médias de ocupação na ordem dos 57%. Esta má utilização do espaço construído não é apenas um problema urbano ou social; tem impactos diretos no consumo de recursos e nas emissões de gases com efeito de estufa.
O BPIE chama ainda a atenção para um aspeto muitas vezes secundarizado no debate público: o carbono incorporado. “Uma parte desproporcionada das emissões associadas aos edifícios ocorre antes mesmo da sua entrada em funcionamento”, no chamado pico inicial de carbono. Ou seja, mesmo edifícios novos e altamente eficientes podem representar um custo climático elevado logo à partida, quando comparados com soluções de reabilitação e reconversão.
Do ponto de vista técnico, esta abordagem tem implicações claras para projetistas, instaladores e decisores. Reabilitar e reconverter edifícios existentes permite reduzir emissões ao longo de todo o ciclo de vida, evitar grandes volumes de resíduos de construção e demolição e aliviar a pressão sobre infraestruturas urbanas já sobrecarregadas. O estudo sublinha que intervenções à escala do quarteirão ou do bairro, integrando edifícios, sistemas energéticos, mobilidade e espaço público, tendem a ser mais eficazes e custo-eficientes do que soluções isoladas edifício a edifício.
Os exemplos práticos apresentados reforçam esta ideia. Cidades como Barcelona, Utrecht ou Chemnitz mostram que políticas que privilegiam a reconversão do edificado existente, apoiadas por enquadramentos regulamentares mais flexíveis e instrumentos financeiros adequados, conseguem reduzir consumos energéticos, estabilizar custos para os utilizadores e revitalizar zonas urbanas degradadas.
Para o setor das instalações técnicas, a integração da suficiência abre novos desafios, mas também novas oportunidades. Sistemas mais flexíveis, redes de baixa temperatura, soluções pensadas para edifícios reconvertidos e uma maior articulação entre arquitetura, engenharia e uso real dos espaços tornam-se fatores decisivos. Como refere o estudo, não se trata apenas de projetar para o melhor desempenho técnico, mas para “a adequação às necessidades reais de ocupação e utilização”.
A conclusão do BPIE é que sem integrar a suficiência nos Planos Nacionais de Renovação, a Europa corre o risco de falhar objetivos climáticos, desperdiçar recursos públicos e perpetuar desequilíbrios no acesso à habitação. Para países como Portugal, com um parque edificado envelhecido, elevados níveis de devolutos e forte pressão sobre a habitação, esta abordagem representa uma oportunidade estratégica que dificilmente fará sentido ignorar.
Mais do que um conceito teórico, a suficiência afirma-se, assim, como uma ferramenta prática, com impacto direto na forma como se planeia, projeta, instala e gere o edificado.
Acesso ao estudo, aqui.

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