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"Assistimos a uma transformação digital no setor energético"

Entrevista com Diego Gomez, regional manager da Axpo Portugal

Ana Clara | Jornalista e Diretora21/05/2021

Nesta entrevista, o responsável da Axpo Portugal aborda o impacto da pandemia no setor elétrico e analisa o futuro que está a ser moldado por mudanças muito significativas: desde a digitalização ao investimento nas renováveis. “O investimento em energia verde continua a ser um dos principais catalisadores do mercado transacional português e um estímulo para a economia do país”, afirma Diego Gomez, regional manager da Axpo Portugal.

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Diego Gomez, regional manager da Axpo Portugal.

Estamos a atravessar uma pandemia. Alguns setores ajustaram-se mais do que outros. Qual o impacto que esta situação teve no setor da energia?

Um dos principais indicadores da economia do país é o seu consumo energético. De acordo com dados da REN, o consumo de eletricidade atingiu em 2020 o valor mais baixo desde 2005, registando uma queda de 3,1% face a 2019 ou de 3,7% considerando correções de temperatura e dias úteis. O confinamento e respetiva diminuição da procura, o aumento da produção renovável, e uma forte descida dos preços do gás e do brent produziram uma descida de preços com níveis históricos. Esta conjugação de fatores, que apareceram inesperadamente e sem possibilidade de reação, colocaram as comercializadoras numa posição excedentária de energia com preços muito desfavoráveis para que exista um equilíbrio.

No caso concreto da Axpo, esta conjuntura teve um impacto bastante negativo, uma vez que existe a garantia de um preço fixo ao cliente durante toda a vida do contrato, sem nenhuma alteração, apesar das oscilações do mercado. Tal pressupõe uma cobertura a 100% do consumo dos clientes, o que nesta situação se traduz numa perda económica elevada, uma vez que os clientes não consumiram a energia que historicamente vinham a consumir devido à pandemia.

A Axpo em momento algum imputou qualquer tipo de custos aos seus clientes (take or pay) e ajudou inclusive vários clientes a renegociarem os seus contratos com preços mais vantajosos e assim manter a sua boa relação com eles.

A digitalização foi, para muitas empresas, o catalisador de uma mudança, há muito, esperada. Como olha para esta viragem de paradigma e como analisa a adaptação que as empresas do setor energético lidaram com tudo isto?

Neste momento assistimos a uma transformação digital no setor energético. Um dos grandes desafios do setor de energia para o futuro é a modernização dos seus processos com recurso à digitalização por meio da IoT (Internet of Things) que lhes permite extrair e recolher o maior número de dados. A difusão de tecnologias digitais para o fornecimento de energia, como Big Data, Cloud Computing ou o desenvolvimento da inteligência artificial, têm permitido a criação de novos modelos de negócios muito mais flexíveis e competitivos.

No caso da eletricidade, a transição dos modelos clássicos e centralizados para modelos assentes na digitalização permitirá às empresas, em tempo real, a monitorização, controlo e automatização de grande parte dos seus processos.

Em Portugal, concretamente, que radiografia traça atualmente do mercado e da conjuntura económica neste setor?

É impossível descrever o setor energético português, sem fazer um breve resumo da última década. A alteração do enquadramento normativo e a liberalização dos mercados, a diversificação das fontes de energia, o aumento transacional das energias renováveis, a globalização dos mercados, o aumento dos preços internacionais, os compromissos ambientais assumidos por Portugal perante a União Europeia marcaram profundamente os contornos do atual mercado de energia em Portugal.

Em Portugal, assiste-se a uma enorme atividade transacional, especialmente na área das energias renováveis. Reconhecido como um dos países com melhor desempenho na implementação de energias renováveis e no alcance de uma sociedade descarbonizada, Portugal comprometeu-se a atingir uma incorporação de 47% de fontes renováveis no consumo final de energia e a atingir pelo menos 80% de renováveis na produção de eletricidade.

Existe o reconhecimento que o setor de energia é o maior impulsionador da transição energética, ao nível da eficiência energética, da diversificação de fontes de energia renovável, ao contínuo aumento da eletrificação dos consumos de energia, reforço e modernização das infraestruturas elétricas e energéticas, digitalização dos players do mercado de eletricidade, incentivo à promoção de serviços energéticos verdes e uma participação mais ativa e informada dos consumidores.

Ainda que neste ambiente pandémico os investidores se revelem mais cautelosos, Portugal é um dos países com maior índice de atratividade no que respeita ao investimento de energias renováveis, sobretudo na energia fotovoltaica, em que os custos se revelam bastante competitivos. O investimento em energia verde continua a ser um dos principais catalisadores do mercado transacional português e um estímulo para a economia do país.

Portugal é um dos países com maior índice de atratividade no que respeita ao investimento de energias renováveis, sobretudo na energia fotovoltaica, em que os custos se revelam bastante competitivos

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Que desafios temos pela frente e o que podemos esperar do setor em 2021?

Acredito que estamos num dos momentos históricos mais interessantes do setor de energia, com uma combinação de fatores que promovem uma rápida mudança e sem precedentes: profunda consciência ambiental; custos de produção de energia renovável muito competitivos; e digitalização das empresas.

A entrada das energias renováveis - tanto em projetos de grandes dimensões como em soluções de autoconsumo - estão a exigir uma enorme alterações, não apenas pela mudança nas tecnologias de produção mas também por aspetos importantes como a maior eletrificação da sociedade, a entrada de novos agentes no setor, uma mudança no fornecimento de um produto para a proposta de um serviço ou avanços tecnológicos em soluções de armazenamento. E todas essas transformações, sucedem-se a um ritmo que certamente agora não o imaginamos como um todo.

No paradigma em que vivemos, outro desafio é, sem dúvida, o ajustamento da capacidade de produção à redução da procura provocada pelo contexto pandémico e consequente queda económica, num momento em que o setor está imerso numa transição para uma geração mais sustentável do ponto de vista ambiental e económico.

É inegável que a conjuntura atual, que surgiu de forma abrupta, tem gerado perdas significativas no setor de energia, uma vez que o modelo previsional da compra de energia assenta na estimativa de procura/preço. A imprevisibilidade deste binómio dificulta a tomada de decisão quanto às estratégias de compra de energia, tanto pelas comercializadoras (que se baseiam no modelo de previsão de procura pelo cliente) quanto pelos clientes (instabilidade económica).

Nestes tempos de mudança, complexidade, volatilidade e incerteza, continua válida a máxima de Darwin, que afirmava que só quem se consegue adaptar ao meio é que consegue sobreviver. Ainda que o horizonte, a curto e médio prazo, não seja muito claro, acreditamos que o aparecimento de vacinas e outros cuidados de saúde, tragam o retorno à normalidade, pelo que defendemos que clientes e comercializadoras devem adotar soluções e produtos com um espectro de longo prazo que, no futuro, sejam capazes de lhes trazer a estabilidade desejada.

Preços

No que respeita aos preços, que comportamentos e decisões podemos esperar? Com a mudança de paradigma, com a mudança de hábitos profissionais e pessoais, onde tem de ficar o consumidor neste puzzle?

Tal como referido anteriormente, a pandemia começou em março de 2020 na zona Ibérica e teve um impacto bastante forte nos preços da energia. Temos de estar conscientes que estamos a viver um ambiente pandémico e que no futuro os preços da eletricidade continuarão a ser afetados e que muito provavelmente não conseguiremos estabelecer relações previsíveis, a curto prazo, entre a relação preço/procura.

Existem várias variáveis que devemos ter em consideração ao prever o preço da eletricidade. No pico da pandemia, existiu uma conjugação destes fatores que contribuíram para uma queda drástica no preço da energia elétrica. Uma forte crise económica, a queda no preço do Brent e no gás, a redução da procura, a falta de procura por produtos e o aumento da produção de renováveis culminaram em valores de energia, bastante inferiores aos praticados.

Esta pandemia foi - e ainda é - um golpe muito duro para a economia e para uma grande parte dos nossos clientes, pelo que é vital que se dê continuidade ao esforço e apoio para que esses impactos negativos tenham um horizonte temporal limitado. Da nossa parte, para além das medidas de apoio que temos implementado, continuaremos a oferecer aos nossos clientes as soluções que melhor se adaptam à sua situação atual, prestando-lhes o melhor aconselhamento, identificando os serviços necessários e vantajosos em termos económicos que garantam a sua estabilidade financeira.

As renováveis são um elemento fundamental para a descarbonização e Portugal, no contexto europeu, não foge à regra. Como antevê esta estratégia em Portugal no contexto do setor energético?

De acordo com o relatório da McKinsey ‘Global Energy Perspective 2021’, em 2036, prevê-se que metade do fornecimento de energia global provenha de fontes renováveis. Há cada vez mais empresas a apostarem na eficiência energética em Portugal, sobretudo na área do autoconsumo fotovoltaico, contudo, no presente contexto económico recessivo ainda não conseguimos quantificar o impacto real da crise socioeconómica e os seus estragos no tecido empresarial português. As empresas estão fragilizadas, encontram-se na defensiva e procuram investimentos estáveis que gerem cash flows previsionais. A principal dificuldade das empresas para iniciarem o seu processo de descarbonização é a falta de capacidade de financiamento. O investimento em medidas de eficiência otimiza o consumo energético, evitam desperdícios e levam a uma redução de custos e uma maior rentabilidade. Num período que colocou novos desafios às empresas, a Axpo lançou uma série de medidas de apoio às PME’s, ao criar linhas de crédito, ao financiar projetos de eficiência energética a 100% ou, no caso de novos clientes, na isenção do pagamento correspondente aos três primeiros meses de fornecimento, sendo este depois faseado nos restantes 12 meses.

Ainda assim, o setor tem-se caraterizado por um forte dinamismo resultado das estratégias europeias e nacionais, na maior participação das energias renováveis na matriz energética, do empenho das empresas em fazerem a transição energética do seu modelo de negócio e pelo aparecimento de uma sociedade consciente da sustentabilidade. Em Portugal, temos de dar prioridade ao investimento em novos parques eólicos e solares, nas redes de energia e no incentivo e mudança de comportamento na adoção de fontes de energia renovável.

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Quais são as fontes renováveis que podem ajudar mais nessa linha de aposta europeia e nacional? Quais as mais maduras e aquelas que demorarão mais tempo?

Em primeiro lugar, quando falamos de energia em Portugal, não podemos esquecer os nossos vizinhos espanhóis, pois o mercado é ibérico. As estratégias europeias e nacionais têm metas muito ambiciosas para as energias renováveis, que aumentam, ano após ano, o seu contributo ao mix energético ibérico. Este contributo será ainda maior aquando a incorporação de tecnologias de armazenamento que permitam uma maior integração das energias renováveis. A energia fotovoltaica, a eólica e o hidrogénio verde são apontadas como sendo os possíveis motores no processo de descarbonização. Do pouco que presenciámos em 2021, acrescentaríamos também o contributo da energia hidráulica.

Hidrogénio

No que respeita concretamente ao hidrogénio, e que Portugal tem apoiado muito a sua penetração no mercado português, que desafios e constrangimentos vê?

O potencial de Portugal reside sobretudo nos custos de produção, sendo que estes são dos mais baixos face aos restantes países europeus. A sua capacidade de produção de energia renovável, mais concretamente a energia solar, será uma vantagem para a produção de hidrogénio e verde e distanciar-se do designado hidrogénio cinza. Por outro lado, a sua localização geográfica proporciona uma grande vantagem para a exportação de hidrogénio. O desafio que Portugal enfrenta é comum ao dos restantes países. Sem um sistema de certificação regulado, não se pode realizar a comercialização do hidrogénio, uma vez que não se consegue aferir com certeza se estamos perante hidrogénio verde ou hidrogénio cinza. Salientamos ainda que apesar de o hidrogénio ter um menor custo de produção e impostos, a sua produção não será eficaz e rentável se os respetivos governos não proporcionarem subsídios e incentivos.

Por fim, fale-me um pouco dos objetivos da Axpo para 2021.

Constatamos que um dos principais problemas para a recuperação económica dos nossos clientes reside na instabilidade dos mercados energéticos que irá dificultar a tomada de decisões estratégicas. Por este motivo, o principal objetivo da Axpo, será oferecer aos seus clientes produtos de longo prazo com condições económicas vantajosas que lhes permitam enfrentar a recuperação com preços de energia estáveis e baixos.
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