Informação profissional do setor das instalações em Portugal
Motores elétricos

Controlo do movimento em linhas de produção

19/08/2020
Artigo de Luís Reis Neves, do Departamento de Engenharia da SEW-EURODRIVE Portugal.

1. Introdução

Na atualidade é indispensável produzir de forma célere, com ciclos diminutos e lotes frequentemente reduzidos. O controlo de movimento no seio das indústrias tem que responder a esses requisitos. Os acionamentos são responsáveis por mais de 90 % dos movimentos, animando sistemas inanimados. São autênticos transdutores de energia elétrica em movimento.

Se em tempos motor e redutor se confundiam com acionamentos, atualmente essa abordagem é bastante limitativa. O acionamento deixou de ser o músculo desprovido de inteligência que agia cegamente às ordens de um controlador de nível superior. Os acionamentos emergiram para um nível superior, impulsionados pelas exigências da engenharia moderna. Os componentes anteriormente mencionados são complementados com poderosos, compactos e versáteis conversores de frequência (usualmente também designados por variadores eletrónicos de velocidade), controladores, monitores de segurança e amigáveis interfaces homem máquina. A polivalência requer adaptação constante às necessidades de produção e reação imediata ao tratamento de informação provida por outros atuadores e sensores. Como tal, os acionamentos têm que falar entre si e com outros dispositivos, criando uma teia de comunicação, sendo consequentemente integrados em redes de bus de campo. Por outras palavras, os acionamentos são a combinação harmoniosa da mecânica, eletricidade, eletrónica, informática e automação: mecatrónica.

Figura 1. Transportador movido por acionamento mecatrónico
Figura 1. Transportador movido por acionamento mecatrónico.
Os controladores de alto nível (normalmente PLC ou PCi) confiam cada vez mais o controlo do movimento e ações de automação aos acionamentos, verificando-se uma migração da inteligência, ou seja, descentralização. Cada vez mais, os acionamentos são independentes na geração, controlo e monitorização do movimento, analisando sinais periféricos, dialogando entre si e com os operadores de forma direta. Ao tradicional controlador de nível superior é dado o papel de supervisor.

2. Um pouco de história

A história do movimento e dos acionamentos cruza-se muitas vezes ao longo do tempo e, por vezes, é mesmo coincidente.

Nos finais do século XIX teve início a era industrial. Assiste-se a um nível inimaginável de mecanização e automatização de processos repetitivos (produção em série). Processos que eram até então desempenhados por pessoas – muitas vezes envolvendo grandes esforços físicos – passam a ser feitos por máquinas. Tratou-se de uma autêntica revolução.

Durante os primeiros anos, essa mecanização foi obtida sobretudo através de correias de transmissão: a energia era transferida por correias de couro a partir de um motor principal, usando polias reversivas e eixos intermédios. A inversão do sentido era obtida através do cruzamento das correias. Desta forma, disponibilizava-se a energia onde ela era efetivamente necessária: na máquina correspondente. O motor central era um motor a gás ou uma roda movida a água. Mais tarde, o motor central passou a ser elétrico. A rotação e o binário eram adaptados para cada aplicação particular recorrendo a redutores tendo por base correias/polias ou engrenagens.

Mesmo quando só era necessário ter uma máquina a funcionar, o motor principal tinha que trabalhar, tornando o sistema bastante ineficiente do ponto de vista energético. Adicionalmente, os eixos rotativos e correias não tinham qualquer blindagem ou protecção, pelo que eram perigosos e extremamente ruidosos. Na figura 2, apresenta-se essa configuração de transmissão de energia.

Figura 2. Máquinas instaladas em nave fabril acionadas através de correias
Figura 2. Máquinas instaladas em nave fabril acionadas através de correias.
Após a invenção do motor elétrico, as desvantagens acima mencionadas fizeram com que se tornasse imperativo que estes tivessem uma utilização universal. A velocidade e o binário ainda tinham que ser adaptados para a aplicação. Para o fazer, eram instalados redutores a jusante dos motores, ligando os veios através de acoplamentos e partilhando a mesma plataforma. Esta combinação possibilitava que a força motriz fosse aplicada apenas onde era necessária.
Contudo, ainda havia espaço para melhorias. Os acoplamentos exigiam tolerâncias radiais e axiais apertadas, pelo que a plataforma comum para a instalação/fixação do conjunto tinha que ser maquinada com elevada precisão. Adicionalmente, a combinação do motor, acoplamento e redutor era demasiado volumosa para muitas aplicações. Por outro lado, o grande número de componentes representava dificuldades acrescidas em termos de diagnóstico.

2.1. O moto-redutor

As considerações anteriores levaram Albert Obermoser, em 1928, a patentear aquele que seria o antecessor do moto-redutor – o motor de contraveio - com o número de patente N576.436. Trata-se de um accionamento em que o corpo do motor é instalado através de flange no cárter do redutor e o veio pinhão do motor montado no interior do redutor. Esta configuração permite um posicionamento preciso e constante das engrenagens no interior do redutor, possibilitando uma operação suave.
Figura 3. O antecessor do moto-redutor: o motor de contraveio
Figura 3. O antecessor do moto-redutor: o motor de contraveio.
O princípio do moto-redutor foi desenvolvido e aperfeiçoado progressivamente ao longo dos anos subsequentes. Foram criados novos processos de produção, conduzindo inevitavelmente a um aumento da gama de potências e dos binários disponíveis e a melhorias significativas na qualidade. O percurso de sucesso do moto-redutor de engrenagens helicoidais foi seguido pelos moto-redutores de roda de coroa e parafuso sem-fim e posteriormente pelos moto-redutores cónicos. Para se conseguir variar a velocidade e fazer ajustamentos às reais necessidades das aplicações, foram introduzidos variadores mecânicos entre o motor e o redutor.

O facto de ser uma unidade homogénea, robusta, compacta e económica, fez do moto-redutor um equipamento de enorme sucesso. Tem por base conceitos e design simples e um número quase ilimitado de combinações, conferindo-lhe extrema versatilidade e tornando-o a melhor solução em termos de acionamento para a maioria das aplicações.

Com o aparecimento dos redutores planetários (unidades extremamente compactas, com minimização da folga angular e frequentemente com relações de transmissão inteiras), abriram-se novas portas para a aplicação dos moto-redutores, designadamente as que exigem elevada precisão, em particular no domínio da robótica.

3. O conversor de frequência

A necessidade de flexibilização dos processos e das máquinas motivada pela diversidade da procura e pela necessidade de encurtamento dos prazos de entrega e de aplicação, lançou novos desafios à engenharia dos acionamentos. Passou a ser imperativo adaptar as rotações em amplas gamas, fazendo-o de forma simples e rápida, frequentemente em pontos afastados do campo, por exemplo em salas de controlo. O avanço da tecnologia levou ao aparecimento dos conversores de frequência e de sistemas de controlo programáveis.
Figura 4. Conversor de frequência: o parceiro ideal do motor
Figura 4. Conversor de frequência: o parceiro ideal do motor.
Passam a existir quadros elétricos com variação eletrónica da velocidade, com controladores centrais que gerem máquinas que podem estar distribuídas em vários locais da instalação. A interface com o operador ganha particular importância, verificando-se consideráveis evoluções neste campo. A flexibilidade e simplicidade de operação são obtidas através de complexos sistemas de automação e de potentes interfaces, mas apesar do desenvolvimento de ferramentas de diagnóstico, a deteção e correção de falhas nem sempre são tarefas simples.

4. Descentralização

Nos finais do século XX verifica-se uma movimentação no sentido da descentralização, passando para o campo funções de monitorização, automação e controlo. Os processos tornam-se mais simples, flexíveis e de mais fácil diagnóstico.

Sem dúvida que a passagem dos conversores de frequência para o campo impulsionou esse processo de descentralização. Os conversores de frequência integrados são montados diretamente no moto-redutor ou na sua vizinhança. Não são necessários cabos entre o motor e o conversor (no limite são encurtados), resultando numa unidade compacta e bastante otimizada nos mais diversos pontos de vista: projeto, instalação, comissionamento, operação e manutenção, o que acarreta vantagens na redução de custos.

Os acionamentos descentralizados estão disponíveis em diversas tecnologias de bus de campo, facilitando a sua integração nas mais diversas topologias de automação.

Figura 5. Acionamento descentralizado MOVIPRO® da SEW-EURODRIVE

Figura 5. Acionamento descentralizado MOVIPRO® da SEW-EURODRIVE.

4. O acionamento mecatrónico

Cada vez mais, a integração e descentralização se apresentam como a chave para o sucesso presente e futuro dos acionamentos. As constantes (e justificadas!) preocupações ambientais ditam novas regras no que respeita a classes de eficiência.

Prevê-se que em 2050 o consumo energético seja o dobro do que foi verificado em 2000. Surgem forças económicas com o intuito da racionalização do consumo energético, motivadas pelos aumentos do consumo, da emissão de gazes poluentes e do custo energético.

Há muito que gerar movimento deixou de ser condição suficiente para definir um acionamento. Obviamente que continua a ser necessário gerar o movimento, mas tem que ser de forma eficiente e com maximização da relação performance/custo. É precisamente aqui que entram os acionamentos mecatrónicos: acionamentos tecnicamente evoluídos, munidos “de inteligência própria” e capacidade de adaptação às inconstantes e reais necessidades de aplicação, designadamente em termos de binário.

No arranque, o binário solicitado pelas aplicações é elevado e de curta duração. Uma vez vencida esta fase, as exigências são consideravelmente inferiores. É neste regime, designado por contínuo, que o acionamento vai operar a maior parte do tempo. Para cumprir estas imposições, os acionamentos convencionais têm que ser sobredimensionados. O ideal era que as curvas do perfil de carga e do acionamento fossem coincidentes. Ora isto implica elevada capacidade de sobrecarga e constante adaptação, ou seja, acionamentos mecatrónicos. Em termos práticos, significa que a potência instalada pode ser consideravelmente reduzida.

Na figura 6 apresentam-se o perfil de carga típico de um transportador e as curvas de binário de um moto-redutor com conversor de frequência e de um acionamento mecatrónico, ilustrando o que anteriormente foi mencionado.

Figura 6. Perfil de carga de um transportador e curvas de binário de acionamentos
Figura 6. Perfil de carga de um transportador e curvas de binário de acionamentos.
Os acionamentos mecatrónicos surgem assim como a evolução natural dos acionamentos descentralizados. São compostos pela harmoniosa combinação de um motor, redutor e eletrónica de potência, numa unidade extremamente compacta e com elevado rendimento.

Às vantagens dos acionamentos descentralizados convencionais, acrescem o reduzido número de versões, a facilidade de limpeza, o funcionamento extremamente silencioso (não possui ventilador), a redução dos custos (instalação, operação e manutenção).

A necessidade de flexibilização dos processos e das máquinas motivada pela diversidade da procura e pela necessidade de encurtamento dos prazos de entrega e de aplicação, lançou novos desafios à engenharia dos acionamentos

5. Sustentabilidade

Até à presente data, o único planeta habitável conhecido pelo homem é a Terra. Não só mas também por isso, a consciencialização da necessidade da sua proteção é inquestionável. Como tal, o controlo do movimento em linhas de produção não pode descurar a questão da sustentabilidade.

Em conformidade com o parágrafo anterior, os produtores de bens de acionamento começam a apresentar soluções inovadoras cujo desenvolvimento contemplou as preocupações ambientais, nomeadamente a integração no ciclo de materiais (baseado num conceito de produto sustentável que permite a reutilização direta de componentes). Adicionalmente, no final do ciclo de vida, o cliente pode/deve devolver a unidade completa para reciclagem.

Figura 7. Ciclo de vida do conversor de frequência MOVI4R-U® da SEW

Figura 7. Ciclo de vida do conversor de frequência MOVI4R-U® da SEW.

6. A internet das coisas

Industria 4.0, Internet das coisas ou Integrated Industry são termos para designar a revolução industrial que se avizinha.

Depois da 1ª revolução industrial com a máquina a vapor, da 2ª revolução com o motor de combustão e da 3ª revolução com a internet e a robótica, chegou a vez da automação completa com máquinas autónomas comunicantes entre si no que concerne aos dados de estado e de comando: a 4ª revolução.

A Internet das coisas foi impulsionada com o lançamento do protocolo Internet V6, possibilitando 340 sextiliões de endereços – o suficiente para cada inseto ao cimo da terra!

Os acionamentos serão um dos impulsionadores do desenvolvimento, assumindo cada vez mais o controlo do movimento e interagindo diretamente com as tecnologias de gestão da produção. A produção terá que reagir rapidamente (para não dizer imediatamente!) a acontecimentos e partilhar os mesmos com outros setores diretos ou indiretos.

O virtual será cada vez mais real e a fronteira entre ambos será muito débil. A inteligência própria é cada vez menos um privilégio apenas dos humanos. Caberá ao homem a tarefa de se adaptar a esta nova realidade, em que máquinas autónomas se encarregam de processos parciais.

7. Conclusão

Onde existe movimento, existem acionamentos. A geração de movimento através de rodas movidas a água ou a vapor faz parte do nosso álbum de recordações (porque alguém nos disse ou porque vimos em fotos ou filmes). Os acionamentos eletromecânicos e recentemente mecatrónicos apresentam-se como a solução ótima para a maior parte das situações. Estes podem ser definidos como sistemas indivisos constituídos por motor, redutor, conversor de frequência e eletrónica de controlo. De facto, o acionamento há muito que deixou de ser apenas músculo. Depois dos circuitos integrados se juntarem às engrenagens, foi a vez dos bits e dos bytes também o fazerem e de coabitarem harmoniosamente no mesmo habitat. Controla-se o movimento que se gera, de forma eficientemente eficaz e integrando funções e segurança.

Do anterior exposto, resulta de forma incontestável que os acionamentos assumem um papel fulcral na geração e controlo do movimento. Consequentemente, a sua especificação tem que ser bastante criteriosa não apenas em termos técnicos, mas também em termos económicos. As exigências técnicas e o custo de investimento são apenas alguns elementos do dilúvio de variáveis da complexa equação de que resulta o acionamento ideal.

Terá que ser feita uma abordagem considerando o ciclo de vida completo, tendo em conta também a instalação, formação, operação, manutenção e encaminhamento do produto no seu final de vida.

São estas as exigências de um mundo moderno, mais eficiente e amigo do ambiente, onde os clientes não exigem a produção de produtos, mas sim do seu produto, disponibilizado onde e quando quiserem.

Não basta mover! É preciso fazê-lo bem, onde for estritamente necessário e, apenas, quando tal se justificar. Alterar o invólucro e manter o conteúdo é utopia. Urge criar novas soluções e novos conceitos e que o sejam de facto.

REVISTAS

Válvulas Arco, S.L.Ordem dos Engenheiros

Media Partners

NEWSLETTERS

  • Newsletter O Instalador

    28/07/2025

  • Newsletter O Instalador

    21/07/2025

Subscrever gratuitamente a Newsletter semanal - Ver exemplo

Password

Marcar todos

Autorizo o envio de newsletters e informações de interempresas.net

Autorizo o envio de comunicações de terceiros via interempresas.net

Li e aceito as condições do Aviso legal e da Política de Proteção de Dados

Responsable: Interempresas Media, S.L.U. Finalidades: Assinatura da(s) nossa(s) newsletter(s). Gerenciamento de contas de usuários. Envio de e-mails relacionados a ele ou relacionados a interesses semelhantes ou associados.Conservação: durante o relacionamento com você, ou enquanto for necessário para realizar os propósitos especificados. Atribuição: Os dados podem ser transferidos para outras empresas do grupo por motivos de gestão interna. Derechos: Acceso, rectificación, oposición, supresión, portabilidad, limitación del tratatamiento y decisiones automatizadas: entre em contato com nosso DPO. Si considera que el tratamiento no se ajusta a la normativa vigente, puede presentar reclamación ante la AEPD. Mais informação: Política de Proteção de Dados

www.oinstalador.com

O Instalador - Informação profissional do setor das instalações em Portugal

Estatuto Editorial