“A indescritível inocência e beneficência da Natureza - do sol, do vento, da chuva, do Verão e do Inverno - a proporcionar sempre saúde e alegria!” (...)
“Não deverei eu estar em comunhão com a terra? Não sou eu mesmo em parte folhas e húmus? Qual é a pílula que nos há-de manter bem, serenos e satisfeitos? Não a do meu ou do teu bisavô, mas sim os remédios botânicos da nossa universal e vegetal bisavó, a Natureza, com os quais ela se tem mantido sempre jovem, sobrevivido a muitos velhos Parrs e alimentado a sua saúde com a fertilidade deles em decomposição”
Henry David Thoreau, in “Walden ou a vida nos bosques” (2009)
“Não se pode isolar o Homem da Natureza, do seu meio, do seu ambiente, e é no meio deste que a chave do seu equilíbrio e da sua cura está universalmente escrita”.
Dr. Pol Henry
A Natureza é pródiga em elementos que individualmente, ou em conjunto, nos podem verdadeiramente conectar a ela. Biofilia é a tese que sustenta a nossa afinidade genética para a nossa ligação à natureza. Essa necessidade biológica que o ser humano tem de lhe estar próximo e em permanente contacto. Para E. O. Wilson, o biólogo americano que popularizou este conceito em 1984, essa necessidade advém do facto de termos evoluído na natureza. «Adoramos a natureza porque aprendemos a amar as coisas que nos ajudaram a sobreviver. Sentimo-nos confortáveis na natureza porque foi onde vivemos durante a maior parte do nosso tempo na Terra. Estamos geneticamente determinados a amar o mundo natural. Está no nosso ADN».
Mais recentemente [2018], o antropólogo e um dos investigadores principais da Shinrin-Yoku [Terapia da Floresta] - Yoshifumi Miyazaki, recorda este mesmo facto indicando que os seres humanos passaram mais de 99,99% da sua história a viver na natureza e que quando entramos em contacto com ela, automaticamente relaxamos sem sequer nos apercebermos disso. Há aproximadamente 7 milhões de anos que a existência humana faz o seu percurso na natureza ao passo que nas cidades só vive apenas há umas centenas de anos.
Encontramos então na Natureza, tudo o que precisamos para viver uma vida em equilíbrio -com o meio e connosco próprios -, tendo ela própria um efeito terapêutico no ser humano podendo atuar como uma medicina natural preventiva. Banhos de Natureza é tudo o que precisamos para uma vida saudável, sem stress ou doenças relacionadas com este problema e com isso podemos melhorar a nossa qualidade de vida.
Sim, podemos utilizar a natureza como terapia e ela nos devolverá bem-estar, paz e saúde reforçada. Os estudos científicos sobre a terapia da natureza têm vindo a demonstrar-nos o seu poder regenerativo e a capacidade de produzir em nós efeitos benéficos vários - físicos e psicológicos -, e que permite(irá) ao ser humano, e em especial os que vivem nas grandes cidades, de restabelecer no seu quotidiano sensações de conforto simplesmente pelo facto de se conseguir sincronizar com os ritmos dos espaços naturais envolventes.
O Centre for Environment, Health and Field Sciences da Universidade de Chiba (Japão), onde o Professor Miyazaki segue a sua investigação, pretende com os estudos sobre a terapia da natureza, lançar luz sobre os efeitos relaxantes fisiológicos de tratamentos relacionados à natureza, como a terapia hortícola e a terapia florestal, e para elucidar os efeitos imunomoduladores do ponto de vista da medicina preventiva.
Este conceito de medicina natural preventiva, que é ancestral na cultura nipónica mas que só há cerca de 40 anos se vulgarizou através da investigação científica do Shinrin-yoku ou Banhos de Floresta, vem confirmar a nossa afeição (do grego filos) à natureza (enquanto entidade viva, bio) ou como já o dissemos à nossa Biofilia reafirmando que «estamos desenhados para estar conectados com o mundo natural, para escutar o vento e saborear o ar», (Dr. Qing Li, 2018).
De entre os resultados convergentes das investigações que têm sido levadas a cabo pelos vários centros de pesquisa no Japão, quer pelo Dr. Li quer pelo Prof. Miyazaki, nomeadamente acerca da terapia da floresta, apontam-se os seguintes efeitos benéficos: redução da pressão arterial, do stress e o nível de açúcar no sangue; melhora a saúde cardiovascular e metabólica; combate a depressão, reforça o sistema imunitário, melhora a concentração e memória e auxilia na perda de peso.
Banhos de Natureza é tudo o que precisamos para uma vida saudável, sem stress ou doenças relacionadas com este problema e com isso podemos melhorar a nossa qualidade de vida
A ideia de Banhos de Natureza, ou apenas de uma das suas partes e.g. floresta, acompanha sempre o ato de mergulho, imersão ou submersão nos ambientes naturais ou nas atmosferas por estes formados. Não basta só dar um passeio rápido no parque, na praia ou na mata. É necessário “estar”, permanecer de forma consciente estabelecendo conexão profunda com o todo mas também com cada uma das partes dessa natureza presente: a montanha, o lago, a árvore, o solo, o vento, a flor, a chuva, as nuvens, as estrelas, o sol, os cheiros, os sons. Sentir, escutar, tocar, saborear, apreciar, pelo que isso só é possível quando nos ligamos de corpo inteiro.
Gary Evans, que em 2018 criou no Reino Unido o The Forest Bathing Institute (TFBI, ) explica que uma sessão típica de shinrin-yoku pode durar três horas, onde se tenta prender a atenção das pessoas no momento presente, propiciando a desaceleração do corpo e mente. As práticas exploram toda a parte sensorial do participante e cria experiências de respiração profunda, observação de cores e padrões da natureza, toque nas árvores e locomoção lenta. «Nós acabamos deitando-nos sob as árvores olhando através dos seus galhos», (www.theguardian.com).
Komorebi é o termo japonês para expressar «o efeito da luz do sol que flui através das folhas das árvores», podendo também referir-se «à sombra projectada no chão» por esse mesmo efeito. É esta estética poética com que os japoneses veem, sentem e cuidam da natureza e são capazes de retirar dos seus fenómenos e interações dos seus elementos a beleza neles contida. E, é precisamente este o ponto de maior afastamento, que nós ocidentais, nos encontramos a anos-luz em relação à cultura oriental. Não que não saibamos também apreciá-la mas porque temos uma visão antagónica do mundo natural e a tudo o que a ele respeita. Seres humanos versus «coisa viva ou vivente». É assim que a compreendemos. É simplesmente uma questão de (falta de) «coração», ou seja, da vibração amorosa, única capaz de tudo agregar por laços invisíveis. Saber olhar (sentindo) a árvore, o animal, a água ou a flor e perceber o quanto eles nos representam e o quanto temos em comum.
Também, a nossa percepção de perfeição, beleza, vazio, movimento, arte e vida fazem diferença acentuada no quadro conceptual das nossas culturas e contribuem para as diferentes visões culturais sobre a natureza - uma natureza em nós (vida unificada) ou que só existe «fora de nós».
Os Banhos de Natureza resgatam esses laços e devolvem-nos ao grande fluxo universal. Práticas como as que Shinrin-Yoku propõe, ou outras como a jardinagem que promovem o contacto directo com a terra, permitem o desenvolvimento dos nossos órgãos sensoriais e a captação da fonte (natureza) a energia que nos nutre e alenta.
Qual é a pílula que nos há-de manter bem, serenos e satisfeitos?
Talvez à pergunta de Thoreau possamos responder de forma concreta com a ajuda da bioquímica e aí ficarmos com mais argumentos para compreender porque as terapias da Natureza apresentam tantos efeitos benéficos para o ser humano.
Certamente que já todos sentimos o cheiro intenso e tão característico da terra, e.g. após a primeira chuvada de outono. Esse cheiro inebriante -um odor argiloso- que permeia o ar é conhecido como Petrichor. O termo cunhado em 1964 pelos investigadores australianos Bear, I.J. e Thomas, R.G., vem do grego e significa “pedra” (pétrā) e “fluido eterno” (ichṓr).
Essa substância química produzida por bactérias do solo e denominada de Geosmina é libertada pelo impacto da queda das gotas de chuva nas rochas ou no solo e cujos nossos narizes lhe são extremamente sensíveis. Vivienne Baillie Gerritsen, do Swiss Institute of Bioinformatics, refere que em média uma pessoa pode detectar essa a geosmina em 0,7 partes por bilião.
Estes aromas dos óleos essenciais voláteis sobem à superfície e são levados pelo vento pelo solo e produzem efeitos imediatos sobre o nosso corpo e mente, influenciando o nosso ânimo.
A profusão de phytoncides numa floresta ou num parque (no caso das cidades) é grande e os efeitos que estes aromas produzem na saúde e bem-estar humanos são inúmeros.
De entre os óleos essenciais que encontramos no mercado Vetiver, Sândalo e Patchouli são as fragrâncias mais próximas ao cheiro da terra mas os maiores benefícios vem da nossa presença nos lugares, junto à natureza. Mas não esqueçamos que um bom banho não dispensa um revigorante mergulho!
O segredo da paz interior é manter a conexão com a natureza.
Esquece a mente, ela mente.
Se der esse passo e deixar esse espaço,
Será iluminado.
Alexander Supertramp
Encontramos na Natureza, tudo o que precisamos para viver uma vida em equilíbrio - com o meio e connosco próprios -, tendo ela própria um efeito terapêutico no ser humano podendo atuar como uma medicina natural preventiva




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