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Banhos de Natureza: momentos de conexão profunda

Alcide Gonçalves | Arquiteta Paisagista01/08/2019
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“A indescritível inocência e beneficência da Natureza - do sol, do vento, da chuva, do Verão e do Inverno - a proporcionar sempre saúde e alegria!” (...)

“Não deverei eu estar em comunhão com a terra? Não sou eu mesmo em parte folhas e húmus? Qual é a pílula que nos há-de manter bem, serenos e satisfeitos? Não a do meu ou do teu bisavô, mas sim os remédios botânicos da nossa universal e vegetal bisavó, a Natureza, com os quais ela se tem mantido sempre jovem, sobrevivido a muitos velhos Parrs e alimentado a sua saúde com a fertilidade deles em decomposição”

Henry David Thoreau, in “Walden ou a vida nos bosques” (2009)

“Não se pode isolar o Homem da Natureza, do seu meio, do seu ambiente, e é no meio deste que a chave do seu equilíbrio e da sua cura está universalmente escrita”.

Dr. Pol Henry

A Natureza é pródiga em elementos que individualmente, ou em conjunto, nos podem verdadeiramente conectar a ela. Biofilia é a tese que sustenta a nossa afinidade genética para a nossa ligação à natureza. Essa necessidade biológica que o ser humano tem de lhe estar próximo e em permanente contacto. Para E. O. Wilson, o biólogo americano que popularizou este conceito em 1984, essa necessidade advém do facto de termos evoluído na natureza. «Adoramos a natureza porque aprendemos a amar as coisas que nos ajudaram a sobreviver. Sentimo-nos confortáveis na natureza porque foi onde vivemos durante a maior parte do nosso tempo na Terra. Estamos geneticamente determinados a amar o mundo natural. Está no nosso ADN».

Mais recentemente [2018], o antropólogo e um dos investigadores principais da Shinrin-Yoku [Terapia da Floresta] - Yoshifumi Miyazaki, recorda este mesmo facto indicando que os seres humanos passaram mais de 99,99% da sua história a viver na natureza e que quando entramos em contacto com ela, automaticamente relaxamos sem sequer nos apercebermos disso. Há aproximadamente 7 milhões de anos que a existência humana faz o seu percurso na natureza ao passo que nas cidades só vive apenas há umas centenas de anos.

Encontramos então na Natureza, tudo o que precisamos para viver uma vida em equilíbrio -com o meio e connosco próprios -, tendo ela própria um efeito terapêutico no ser humano podendo atuar como uma medicina natural preventiva. Banhos de Natureza é tudo o que precisamos para uma vida saudável, sem stress ou doenças relacionadas com este problema e com isso podemos melhorar a nossa qualidade de vida.

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Sim, podemos utilizar a natureza como terapia e ela nos devolverá bem-estar, paz e saúde reforçada. Os estudos científicos sobre a terapia da natureza têm vindo a demonstrar-nos o seu poder regenerativo e a capacidade de produzir em nós efeitos benéficos vários - físicos e psicológicos -, e que permite(irá) ao ser humano, e em especial os que vivem nas grandes cidades, de restabelecer no seu quotidiano sensações de conforto simplesmente pelo facto de se conseguir sincronizar com os ritmos dos espaços naturais envolventes.

Medicina natural preventiva

O Centre for Environment, Health and Field Sciences da Universidade de Chiba (Japão), onde o Professor Miyazaki segue a sua investigação, pretende com os estudos sobre a terapia da natureza, lançar luz sobre os efeitos relaxantes fisiológicos de tratamentos relacionados à natureza, como a terapia hortícola e a terapia florestal, e para elucidar os efeitos imunomoduladores do ponto de vista da medicina preventiva.

Este conceito de medicina natural preventiva, que é ancestral na cultura nipónica mas que só há cerca de 40 anos se vulgarizou através da investigação científica do Shinrin-yoku ou Banhos de Floresta, vem confirmar a nossa afeição (do grego filos) à natureza (enquanto entidade viva, bio) ou como já o dissemos à nossa Biofilia reafirmando que «estamos desenhados para estar conectados com o mundo natural, para escutar o vento e saborear o ar», (Dr. Qing Li, 2018).

De entre os resultados convergentes das investigações que têm sido levadas a cabo pelos vários centros de pesquisa no Japão, quer pelo Dr. Li quer pelo Prof. Miyazaki, nomeadamente acerca da terapia da floresta, apontam-se os seguintes efeitos benéficos: redução da pressão arterial, do stress e o nível de açúcar no sangue; melhora a saúde cardiovascular e metabólica; combate a depressão, reforça o sistema imunitário, melhora a concentração e memória e auxilia na perda de peso.

Banhos de Natureza é tudo o que precisamos para uma vida saudável, sem stress ou doenças relacionadas com este problema e com isso podemos melhorar a nossa qualidade de vida

A ideia de Banhos de Natureza, ou apenas de uma das suas partes e.g. floresta, acompanha sempre o ato de mergulho, imersão ou submersão nos ambientes naturais ou nas atmosferas por estes formados. Não basta só dar um passeio rápido no parque, na praia ou na mata. É necessário “estar”, permanecer de forma consciente estabelecendo conexão profunda com o todo mas também com cada uma das partes dessa natureza presente: a montanha, o lago, a árvore, o solo, o vento, a flor, a chuva, as nuvens, as estrelas, o sol, os cheiros, os sons. Sentir, escutar, tocar, saborear, apreciar, pelo que isso só é possível quando nos ligamos de corpo inteiro.

Gary Evans, que em 2018 criou no Reino Unido o The Forest Bathing Institute (TFBI, ) explica que uma sessão típica de shinrin-yoku pode durar três horas, onde se tenta prender a atenção das pessoas no momento presente, propiciando a desaceleração do corpo e mente. As práticas exploram toda a parte sensorial do participante e cria experiências de respiração profunda, observação de cores e padrões da natureza, toque nas árvores e locomoção lenta. «Nós acabamos deitando-nos sob as árvores olhando através dos seus galhos», (www.theguardian.com).

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Komorebi é o termo japonês para expressar «o efeito da luz do sol que flui através das folhas das árvores», podendo também referir-se «à sombra projectada no chão» por esse mesmo efeito. É esta estética poética com que os japoneses veem, sentem e cuidam da natureza e são capazes de retirar dos seus fenómenos e interações dos seus elementos a beleza neles contida. E, é precisamente este o ponto de maior afastamento, que nós ocidentais, nos encontramos a anos-luz em relação à cultura oriental. Não que não saibamos também apreciá-la mas porque temos uma visão antagónica do mundo natural e a tudo o que a ele respeita. Seres humanos versus «coisa viva ou vivente». É assim que a compreendemos. É simplesmente uma questão de (falta de) «coração», ou seja, da vibração amorosa, única capaz de tudo agregar por laços invisíveis. Saber olhar (sentindo) a árvore, o animal, a água ou a flor e perceber o quanto eles nos representam e o quanto temos em comum.

Também, a nossa percepção de perfeição, beleza, vazio, movimento, arte e vida fazem diferença acentuada no quadro conceptual das nossas culturas e contribuem para as diferentes visões culturais sobre a natureza - uma natureza em nós (vida unificada) ou que só existe «fora de nós».

Os Banhos de Natureza resgatam esses laços e devolvem-nos ao grande fluxo universal. Práticas como as que Shinrin-Yoku propõe, ou outras como a jardinagem que promovem o contacto directo com a terra, permitem o desenvolvimento dos nossos órgãos sensoriais e a captação da fonte (natureza) a energia que nos nutre e alenta.

Qual é a pílula que nos há-de manter bem, serenos e satisfeitos?

Talvez à pergunta de Thoreau possamos responder de forma concreta com a ajuda da bioquímica e aí ficarmos com mais argumentos para compreender porque as terapias da Natureza apresentam tantos efeitos benéficos para o ser humano.

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Petrichor, Geosmina e Phytoncides

Certamente que já todos sentimos o cheiro intenso e tão característico da terra, e.g. após a primeira chuvada de outono. Esse cheiro inebriante -um odor argiloso- que permeia o ar é conhecido como Petrichor. O termo cunhado em 1964 pelos investigadores australianos Bear, I.J. e Thomas, R.G., vem do grego e significa “pedra” (pétrā) e “fluido eterno” (ichṓr).

Essa substância química produzida por bactérias do solo e denominada de Geosmina é libertada pelo impacto da queda das gotas de chuva nas rochas ou no solo e cujos nossos narizes lhe são extremamente sensíveis. Vivienne Baillie Gerritsen, do Swiss Institute of Bioinformatics, refere que em média uma pessoa pode detectar essa a geosmina em 0,7 partes por bilião.

Estes aromas dos óleos essenciais voláteis sobem à superfície e são levados pelo vento pelo solo e produzem efeitos imediatos sobre o nosso corpo e mente, influenciando o nosso ânimo.

A profusão de phytoncides numa floresta ou num parque (no caso das cidades) é grande e os efeitos que estes aromas produzem na saúde e bem-estar humanos são inúmeros.

De entre os óleos essenciais que encontramos no mercado Vetiver, Sândalo e Patchouli são as fragrâncias mais próximas ao cheiro da terra mas os maiores benefícios vem da nossa presença nos lugares, junto à natureza. Mas não esqueçamos que um bom banho não dispensa um revigorante mergulho!

O segredo da paz interior é manter a conexão com a natureza.

Esquece a mente, ela mente.

Se der esse passo e deixar esse espaço,

Será iluminado.

Alexander Supertramp

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