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Entrevista com António Sampaio, Diretor Técnico do grupo Contimetra Sistimetra

Contimetra | “A gestão técnica dos edifícios é um investimento com retorno assegurado em tempo útil”

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“A condução, a monitorização, a racionalização das funções de controlo, a sua otimização de modo a aumentar a eficiência energética e a evidenciá-la relativamente às instalações técnicas destes edifícios, têm nos SACE a ferramenta fundamental.”
“A gestão técnica dos edifícios — quando regulamentada, bem implementada e orientada para a eficiência — torna-se não apenas uma ferramenta tecnológica, mas um dever coletivo.”

Com os edifícios no centro das metas europeias de eficiência energética e descarbonização, os sistemas de AVAC e a gestão técnica assumem um papel decisivo no cumprimento da Diretiva EPBD. Em entrevista, António Sampaio, diretor técnico do grupo Contimetra Sistimetra, explica como a automação, a monitorização contínua, a qualidade do ar interior e a integração de dados estão a redefinir o desempenho energético dos edifícios e a resposta às novas exigências regulamentares.

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O Grupo Contimetra Sistimetra atua há décadas no setor da automação e da gestão técnica de edifícios. Que fatores explicam a sua capacidade de adaptação e relevância num mercado tão técnico e exigente?

O seu nascimento há 62 anos, resultou da consciencialização de um grupo técnico, qualificado e heterogéneo, de pessoas que, pensando à frente, empreenderam para responder oportunamente (e com proximidade) às necessidades da indústria (química elétrica e metalomecânica) nas áreas da manutenção, controlo e automação de processos. A resposta focada na comercialização e apoio técnico de qualidade de equipamentos tecnologicamente de ponta, abriu caminho para aceitar o desafio de implementar as primeiras instalações de GTC(SACE), na década de 70, em edifícios de grande porte em Portugal, como são exemplo o Banco Espírito Santo, na Avenida da Liberdade em Lisboa, o Edifício Marconi (atuais instalações do Banco de Portugal), na Avenida Álvaro Pais ou mais recentemente, no setor farmacêutico, o edifício da Edol, em Carnaxide - Lisboa.

Ao longo dos anos, os fatores foram-se somando, mas é importante destacar que desde o seu início, o espírito “de avanço” manteve-se no ADN do Grupo Contimetra Sistimetra com base em parcerias fortes com marcas de renome internacional, como a Johnson Controls, a Trox e a Belimo, complementadas localmente pelo Grupo Contimetra Sistimetra com o melhor apoio técnico, para responder às sempre crescentes expetativas dos nossos clientes.

O setor dos edifícios vive hoje uma forte pressão regulatória, tecnológica e ambiental. Como é que a empresa tem acompanhado as novas diretivas europeias, nomeadamente a EPBD, e que impacto isso tem nas soluções que desenvolve?

A energia é um dos assuntos que preocupa o planeta, desde as fontes à sua utilização. Por isso sentimos que a regulamentação é absolutamente crucial, num setor responsável por 40% da energia consumida, como é o caso dos edifícios.

O Grupo, pela sua posição no mercado, segue naturalmente todas as diretivas que regulamentam a sua área de negócio certificando-se que os equipamentos e componentes que promove cumprem com as diretivas e regulamentos em vigor. Porém, o nosso contributo vai além da vertente comercial, desenvolvendo diversas iniciativas técnicas ao longo do ano com o objetivo de dotar a comunidade de conhecimento normativo, por vezes difícil de interpretar e, até mesmo, de colocar em prática nos diferentes projetos. A diretiva EPBD no setor dos edifícios é o nosso guia de avaliação das aplicações que desenvolvemos e propomos, baseados nos equipamentos que comercializamos que, por sua vez, foram já concebidos no contexto da mesma.

A Gestão Técnica Centralizada é hoje um pilar dos edifícios modernos. Que papel desempenham os sistemas SACE na resposta às exigências de eficiência energética, monitorização e controlo?

Os edifícios modernos em especial na área dos serviços, na área hospitalar, na área da hotelaria e outros em áreas equivalentes e igualmente preponderantes, são dotados de mais ou menos sistemas eletromecânicos que no seu conjunto, dão suporte às condições de serviço, produtividade e bem-estar, necessárias aos utentes que os utilizam. A diversidade técnica dos sistemas instalados, a energia consumida e a complexidade das suas funções, requer a observância constante das suas condições de funcionamento.

A condução, a monitorização, a racionalização das funções de controlo, a sua otimização de modo a aumentar a eficiência energética e a evidenciá-la relativamente às instalações técnicas destes edifícios, têm nos SACE a ferramenta fundamental.

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Além da energia, temas como a Qualidade do Ar Interior, o conforto e a saúde dos ocupantes ganharam protagonismo. Como é que a automação responde?

Cada vez mais existe a consciência de que o bem estar, e, por conseguinte, o desempenho, dos colaboradores deve muito à qualidade do ambiente do seu local de trabalho.

Entre outros fatores, o ambiente depende da qualidade do ar que se respira. As unidades de tratamento de ar (UTA) são projetadas, em primeira instância, para as cargas térmicas a combater e por outro lado, em resposta ao número de pessoas que estatisticamente e em simultaneidade poderão vir a ocupar os espaços servidos. Este primeiro passo na otimização energética é central e normativamente seguido pela gestão individual, em cada espaço, ou seja, a gestão do caudal de ar em função da ocupação. Os reguladores terminais de caudal de ar variáveis (VAV) em conjunto com os transmissores de qualidade do ar ambiente (ideal) ou no retorno/extração, são a ponte que liga a função “qualidade do ar” à automação (controlo) e à gestão técnica.

A solução da Contimetra Sistimetra inclui toda a cadeia reguladores de caudal de ar e água; sensores de qualidade do ar; controlador DDC dedicado integrável na SACE.

A monitorização contínua e a recolha de dados tornaram-se centrais na gestão dos edifícios. Como é que estas ferramentas contribuem para a racionalização dos consumos e para os objetivos de descarbonização?

A monitorização contínua e a recolha de dados beneficiam do aumento da capacidade de armazenamento nos sistemas de gestão. Deste ponto de vista, a capacidade de armazenar um histórico maior constitui uma fonte de dados com relevância em análises e decisões futuras.

O histórico construído ao longo do tempo permite aos gestores dos edifícios analisarem o seu comportamento térmico, energético, fiabilidade dos equipamentos e outras situações que da análise histórica de ocorrências podem ser identificadas.

Todos estes resultados analíticos permitem ajustar estratégias de operação, otimizar a utilização dos equipamentos e corrigir anomalias antes de assumirem maior impacto. Esta atuação preditiva e informada traduz-se diretamente numa melhoria da eficiência global do edifício e numa racionalização consistente dos consumos energéticos — um contributo essencial para cumprir as metas de descarbonização.

A inteligência artificial (IA) começa a ganhar expressão na gestão de edifícios. Que potencial vê na utilização de IA?

A capacidade de armazenamento de dados permite uma melhor análise do comportamento dos sistemas e equipamentos técnicos dos edifícios. Porém, a quantidade e natureza de dados recolhidos são por vezes difíceis de analisar de forma global, quando por exemplo ocorrências individuais, aparentemente independentes, contribuem para anomalias dos equipamentos e dos sistemas.

A plataforma OpenBlue, desenvolvida pela nossa parceira de negócios Johnson Controls, é a resposta à gestão dos edifícios como apoio indispensável à monitorização e análise das variáveis associadas ao comportamento energético dos edifícios e funcionamento e desempenho dos equipamentos e sistemas. A IA na Plataforma OpenBlue é o apoio complementar ao gestor com base em algoritmos pré configurados que analisam, comparam e simulam dados de situações múltiplas apoiando a gestão do edifício com a perceção de sinais de funcionamento anómalo numa fase embrionária permitindo desenvolver ações preventivas/corretivas de custos muito inferiores aos que teriam de ser suportados caso os “problemas” aumentassem por falta de ação atempada. Por outro lado, permite apresentar evidências, obrigatórias, sobre a efetiva redução da 'pegada carbónica'. Contribui assim para o bom desempenho global do edifício e da sua missão.

Do ponto de vista técnico, o que distingue o desenvolvimento da lógica de controlo nos sistemas do grupo Contimetra Sistimetra?

O grupo rege-se pela lógica do 'loop' de controlo - 1º medir; 2º comparar; 3º atuar.

Partindo do princípio básico de que 'Não se pode controlar o que não se mede' damos importância à medida, de acordo com a aplicação, na adequação, qualidade e precisão do 'sensor' e na localização e qualidade da montagem. A escolha dos nossos parceiros nesta área de componentes foi sempre criteriosa e que acompanham permanentemente a evolução tecnológica.

No segundo grupo, a comparação, temos por base sistemas de controlo centralizado e distribuído da última geração de modo a integrar e coordenar subsistemas das diversas áreas técnicas de cada edifício: AVAC, Iluminação artificial e natural, controlo de acessos entre várias outras.

Na atuação damos importância aos componentes de campo, com especial relevo àqueles aplicados em AVAC como são o caso dos atuadores de registo de ar e válvulas de controlo hidráulico. Neste terceiro grupo somente marcas de reconhecida qualidade e honestidade técnica como a Belimo e a Frese são a nossa base de trabalho. Não descuramos também a partilha com os nossos parceiros Instaladores de AVAC da informação e esclarecimento técnico relevante para uma adequada montagem.

Este procedimento, independentemente da área a que se aplica, é 'escola' na empresa.

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A integração de diferentes dispositivos, marcas e protocolos continua a ser um desafio em muitos projetos. Como é que o grupo aborda esta complexidade?

Nos SACE a integração de diferentes dispositivos está na ordem do dia. Na Contimetra Sistimetra ao trabalharmos com as soluções Metasys da Johnson Controls, sendo estas de arquitetura aberta, a nossa abordagem consiste em aconselhar, no apoio habitual aos projetos, o uso de protocolos standard mais usados nesta área tais como o BACnet, o Modbus, o M-Bus, o KNX, o MQTT.

Nos edifícios a abordagem da integração passa naturalmente pelo levantamento e avaliação dos dispositivos existentes identificando a melhor das soluções; usar o protocolo, se existente, 'transcrever' o dispositivo, ligações e funções, para dispositivo nativo da solução proposta ou substituir por equivalente com protocolo adequado. Em última análise a escolha será económica, sem ferir a operacionalidade e continuidade de serviço esperado.

Adicionalmente, contamos com parcerias robustas quer a nível de equipamento, componentes e software, dotando-nos de uma visão e conhecimento amplo e multidisciplinar, do comportamento de cada um dos fatores e do impacto e importância que cada um tem no edifício.

A fase de testes e comissionamento é crítica para o sucesso de qualquer sistema. Que metodologias utilizam?

O conjunto de elementos que conjugados entre si cumprem um determinado propósito formam um sistema. Estes, de acordo com a sua natureza, terão mais ou menos intervenientes. O seu teste e comissionamento é assim da responsabilidade de todos os intervenientes fornecedores / instaladores.

A metodologia que propomos sempre é o planeamento cronográfico desses testes antes da intervenção do controlo / SACE (GTC) fazer o comissionamento final do conjunto em funcionamento. Por norma e de modo a garantir a credibilidade do SACE e poder proporcionar a eficaz condução do edifício, cada variável de campo (motores, sensores, válvulas de controlo, atuadores, etc, ) terá obrigatoriamente de ser confirmada. Trabalho de equipa de todos os intervenientes na obra, sem dúvida.

O papel do instalador e do integrador tornou-se cada vez mais técnico. Como é que a Contimetra Sistimetra apoia estes profissionais?

A todos os profissionais envolvidos exige-se espírito crítico e qualificação adequada. No Grupo existe o espírito da formação e apoio técnico suportados pela formação dos nossos técnicos. Aos técnicos dos nossos clientes mantemos uma filosofia de formações, algumas ministradas por técnicos nossos e outras por técnicos das próprias representadas que nos apoiam neste processo repartido por várias áreas, aeronáutica, hidráulica e automação. Neste sentido a empresa tem promovido regularmente sessões técnicas nas suas instalações ou mesmo em espaços de maior visibilidade e condições de divulgação em eventos de maior participação com o envolvimento de profissionais das marcas de quem somos parceiros.

Que normas, referenciais técnicos ou boas práticas internacionais têm vindo a ser trazidas para Portugal e porquê?

Acompanhamos de perto a evolução da nova EN ISO 52120-1, no âmbito da EPBD, com as empresas parceiras que atuam no mercado europeu. Tal como já referido faz parte da nossa estratégia técnica e comercial promover equipamentos e componentes que consideramos uma mais-valia significativa relativamente a soluções tidas como 'intocáveis' no mercado nacional. Neste contexto podemos congratular-nos por termos procurado estar à frente do mercado e da necessidade e que se confirma pela nossa adesão sem reservas às novas propostas técnicas inscritas na última versão da EN ISO 52120-1. Aguardamos com entusiasmo a sua transposição para o ordenamento jurídico português que, segundo o calendário pré-estabelecido, deverá ocorrer até 29 de maio do presente ano.

Que papel pode e deve o Governo Português desempenhar para acelerar a adoção de sistemas de gestão técnica?

A nosso ver e quando no país se apregoa, e bem, a bandeira da descarbonização, a máxima da eficiência energética e a racionalização no consumo de energia, somadas à instalação cada vez maior de fontes de energias renováveis eólica, solar, hídrica fazia todo o sentido o Governo incentivar medidas complementares de apoio na aquisição de soluções de eficiência térmica / energética, instalação de sistemas de gestão técnica e plataformas digitais, nos edifícios; através de impostos (IVA…), programas de financiamento especiais com juros reduzidos ou outros programas equivalentes.

Para terminar, que mensagem deixaria a instaladores, projetistas e decisores?

Mais do que uma mensagem sobre um tema que queremos acreditar já muito poucos têm dúvidas, gostaríamos de apelar à necessidade dos endereçados se juntarem através das ordens e associações que os representam, para 'pressionar' o Governo no sentido já exposto anteriormente. Se os visados analisarem os custos associados à energia prevista / consumida anualmente nos edifícios poderão ter uma avaliação do que seria reduzir esses custos em 20%.

A gestão técnica de forma global é um investimento com retorno assegurado em tempo útil.

"O bem-estar tecnológico de que a sociedade contemporânea usufrui tem um custo crescente para o planeta, sobretudo porque continuamos a consumir energia de forma pouco racional. Estamos a esgotar recursos naturais a um ritmo acelerado e, muitas vezes, ignoramos os sinais evidentes das alterações climáticas, que resultam de múltiplas causas acumuladas ao longo do tempo.

Perante este cenário, a gestão técnica dos edifícios — quando regulamentada, bem implementada e orientada para a eficiência — torna-se não apenas uma ferramenta tecnológica, mas um dever coletivo. É uma forma concreta de reduzir consumos, melhorar o desempenho energético e mitigar impacto ambiental. Acima de tudo, é um contributo essencial para garantirmos que as próximas gerações recebem um planeta melhor, mais equilibrado e mais responsável do que aquele que herdámos".

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